o processo de cura passa pela dor

Experimentar as infelicidades no caminho não é o que idealizamos. Há sempre grandes clichês por aí, dizendo que nossas aflições fazem parte do processo evolutivo. Mas o ponto é que quando dói, queremos evitar.

Ninguém mergulha numa narrativa esperando laceração. Ninguém se joga num novo capítulo sabendo o quão dolorido será o percurso. Nós sempre esperamos as lutas, porém nem sempre estamos preparados para enfrentá-las.

Inúmeras vezes ao entrar em contato com a dor, queremos, de forma desenfreada, um alívio para tudo isso. Buscamos nos anestesiar e não ter que lidar com toda a bagagem trazida por ela. Nossa reação nem sempre condiz com atitudes comuns em nosso estado normal, e decisões extremas são tomadas sistematicamente, apenas por busca de alívio e respiro.

Na maioria das vezes, sofremos pelo que amamos. O amor, constantemente, possui ligação direta com alguns desprazeres. Se insiste em doer, se a ferida foi profunda… muito provavelmente ali havia afeição.

No amor e na guerra, tudo é válido. Entretanto nem todas as batalhas se encerram com a glória de um dos lados, mas sim com ecos dos estilhaços dos corações. E tudo isso faz com que nos perguntemos se o preço pago, de fato, valeu a pena. O poder de nos gerar as mais profundas dores está nas mãos daqueles que mais amamos. E de fato, não há nada mais frágil que o coração humano.

Chega a ser grotesco equiparar dois sentimentos tão opostos. Mas infelizmente é assim. Quem amamos também nos fere.
Todos nós cometemos erros e pessoas boas também fazem más escolhas. Isso não quer dizer que a punição precisa ser eterna ou que, de fato, elas sejam más.

Significa que são humanas.

estrada

E é só eu te ver para entender que todo final merece um início. Às vezes nos perdemos nas dores da caminhada e nos esquecemos que em cada estação há novas histórias dispostas a embarcarem conosco nessa viagem ao tão sonhado eterno.

Vez ou outra nos encontramos na neblina e fica difícil enxergar além, tudo que vemos é um grande borrão confuso e um futuro incerto, que talvez nunca seja capaz de passar daquilo. Uma história de conto incompleto, com reticências. Uma grande obra em potencial… inacabada.

E assim seguimos nessa estrada cheia de incertezas e medos. Horror do que passou, do que fizemos ou deixamos de fazer, dos julgamentos, da entrega, do recomeço, dos machucados, da não-cicatrização, da vida… do amor e do que ele é capaz de causar quando limitado.

É tudo muito abstrato e a vida vira um grande rascunho, onde precisamos encontrar formas de dar sentido as coisas, de ressignificar feridas e aprender a canalizar as lembranças e embarcar nessa grande inércia criada, promovida pela enorme combustão que todos esses traumas são capazes de gerar. E talvez reinterpretando todos esses processos, consigamos atingir novos patamares dentro dessa bagunça de pensamentos. Quem sabe a, tão necessária, insanidade faça parte da realidade e se torne fragmento do nosso destino.

Recomeçar nem sempre é descomplicado, mas por algum motivo esse cruzamento de caminhos me fez enxergar algo o que ainda não tinha observado, algumas nuances que foram esquecidas durante a viagem. Me fez perceber o apego por dores, e abriu meus olhos para uma força interior que nasceu da vontade de provar da possibilidade da oportunidade de ser feliz.

Os processos vão acontecendo, os ciclos vão sendo encerrados, as feridas vão cicatrizando e outras vão se abrindo. Mas não tem problema, já é manhã. É hora de seguir e entender que, talvez, as chagas causadas por histórias mal vividas nem sempre precisam ser tão avassaladoras quanto idealizamos. É preciso aprender a conviver com nossas feridas.

Alguns processos são necessários. Outros são dispensáveis. Sem demagogias e sem pleonasmos.

Tudo segue seu fluxo. E não é porque tudo não saiu como imaginamos, que as coisas não estão acontecendo da melhor forma possível.

ponto de equilíbrio

As coisas vão ganhando rumo quando decidimos olhar para dentro de nós mesmos para buscarmos nossa própria força. Mesmo em meio à deslizes, é possível enxergar além. Por mais distante que pareça, um dia chegaremos no nosso ponto de equilíbrio.

E tudo recomeça. Todo aquele ciclo do saber, tão árduo e, muitas vezes, indecifrável. A tal da dor da evolução que vem e vai.

Hoje me olhando no espelho percebi alguns traços em meu sorriso que anteriormente não tinha percebido. Talvez ainda não tinha tido um olhar tão leve para me enxergar com mais amor, com mais paixão por mim mesmo, com mais ânsia por essa nova etapa que a vida me proporcionou.

2020 foi e está sendo um ano repleto de surpresas. Ruins e boas… mas edificadoras, que me forçaram a sair completamente da minha zona de conforto para aprender a lidar com meus maiores gigantes. Foi um ano intenso. E quando olho para trás, vejo o quanto percorri e penso que possivelmente já tenha aprendido o bastante…. a vida vem e me apresenta uma nova etapa.

Talvez há muito mais a se conhecer a respeito do meu próprio eu. É tudo muito mais assustador e excitante do que imaginamos. E eu me pego mergulhando nessa imensidão, disposto a conhecer cada caixinha fechada, de peito aberto… com um amor incondicional por mim. Aquele que me levantou quando ninguém mais seria capaz disso e me trouxe até aqui…

[de dezembro de 2020]

ê 2020…

Cá estou após tantos altos e baixos, algumas conquistas, algumas perdas… vários aprendizados. Esse ano foi bem peculiar – sei que não só para mim – e muita coisa teve que ser revista, muitas atitudes tiveram que ser repensadas e muitas novas etapas iniciadas.

Em 2015 eu estava iniciando uma nova jornada, cheguei a escrever aqui no blog quando tomei essa decisão e de lá pra cá minha vida tem mudado radicalmente e de forma um pouco descontrolada.

Bom, primeiro de tudo eu abandonei o curso de engenharia, não tive sanidade mental para conciliar as duas e no fim das contas não me vejo mais voltando para a sala de aula cursando mais 3 semestres para finalizar o curso. A bagagem que adquiri em 4 anos de curso me serviu muito e me ajudou a ganhar uma maturidade muito grande frente às novidades que enfrentei durante o curso de arquitetura e urbanismo.

Foi um longo caminho que trilhei durante esses 5 anos e em paralelo, minha vida pessoal cheia de altos e baixos. Tive que lidar com dilemas da minha vida pessoal, aprender a plantar flor em pedra e tentar enxergar coisas boas, mesmo quando minha vontade era desistir de tudo. Mas isso eu pretendo escrever mais abertamente nos próximos posts, é uma história longa que merece um post específico.

E o que 2020 me trouxe? Algumas novas descobertas, um amadurecimento sem igual, fortalecimentos nos meus laços de amizade, um livramento de um relacionamento adoecedor e… meu diploma!

Acho que essa foi, sem dúvidas, a melhor parte de tudo. Mesmo com um turbilhão de coisas acontecendo, consegui conciliar meu TCC com as inúmeras questões pessoais que tive nesse ano, mesmo aos prantos e sem forças para sair da cama, me obrigava dar continuidade no projeto ali mesmo, na cama e com a cabeça a mil.

Foi bem difícil, mas muito recompensador saber que consegui passar por essa etapa e agora me tornar arquiteto. E mesmo em meio a pandemia, consegui me formar e ser contratado foi a cereja do bolo. Acho que foi um mimo que a vida me deu depois de tudo que aconteceu e eu não poderia estar mais grato à vida e a Deus por tudo que vem acontecendo comigo.

Ironicamente estou vivendo um dos piores e MELHORES ano da minha vida. Consegui experimentar um pouco dos dois extremos e me conformar que as vezes não precisamos entender o porquê de tudo isso acontecer. Temos que simplesmente abrir nossos braços e receber as coisas que a vida nos traz. Não nos conformar com os impasses e tentar seguir em frente, por mais que nossa vontade seja recuar.

Vou voltar por aqui, pois tenho muita coisa pra escrever ainda. Muita coisa aconteceu durante esses 5 anos e quero postar meu tema de TCC aqui. Me orgulho bastante dele. Modéstia parte, fiz um excelente trabalho e escolhi um tema que tem muito a ver com minha trajetória durante o curso. Fiz um centro de acolhimento para LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade.

25/06

O seu problema nunca foi o de não estar conseguindo lidar com as diferentes dificuldades encontradas no caminho. Conciliar tudo o que estava acontecendo era apenas um detalhe perto do gigante criado entre nós. Aquele que você cultivou com tanto apego enquanto eu me desdobrava pra te alcançar, enquanto eu chorava ou tinha crises de ansiedade todas as noites, me sentindo insuficiente e incapaz de resgatar o que supostamente vivemos um dia.

Hoje eu olho para trás e vejo aqui nesse blog a quantidade de textos escritos regados de lágrimas, mostrando o quanto tudo isso me machucava, o quanto era difícil fazer o que era o melhor para mim. Eu simplesmente não tinha forças.

Eu me doei, abri mão de mim, do meu orgulho, da minha rotina, da minha zona de conforto, da minha possível falta de empatia, das minhas vulnerabilidades… abri mão da minha própria identidade, banquei o mártir e diversas vezes engoli seco meus anseios apenas para estar bem contigo.

Você já decidiu seguir noutro caminho e todo aquele discurso elaborado e construído sobre a falta de certeza que a situação atual oferecia, era apenas um discurso raso e controlador. Discurso esse que foi usado nos momentos certos e por diversas vezes que quis reagir ou me desvencilhar de tudo isso.

Hoje em dia enxergando toda essa história de uma forma mais sóbria, é claro que você fez o que já estava preparado para fazer. O que você vinha cultivando há mais de 1 ano.

E para ser bem sincero, a realidade é que você apenas continuou sem fazer absolutamente nada por nós.

Você amava estar no controle da situação. Você amava me ver ali, submisso e disposto a tudo por você. Me desdobrando para compensar a falta de articulação que você tinha, a falta de diálogo e a insegurança absurda travestida em uma capa implacável falsamente criada por você.

E eu sempre quis voltar para casa, aquele nosso castelo infernal decorado… onde eu sobrevivia quase que inteiramente das suas migalhas.

Você sempre me tratou de um jeito frio. Sempre ausente em diversos aspectos, mas atento a qualquer suposto deslize que eu poderia cometer, que apresentasse qualquer sinal de ameaça  dentro dos seus “conceitos morais”. Conceitos esses que você sempre usava pra invalidar qualquer necessidade de reafirmação demandada por mim.

E talvez eu só tenha que te agradecer por você ter sido tão covarde e mínimo comigo. Isso me fez aprender a identificar o tipo de amor medíocre que eu não preciso e não mereço ter em minha vida.

Eu, de fato, fui ínfimo para mim… e demais para você.

oi, …

Ok, não era para eu estar te mandando essa mensagem. Mas eu precisava te dizer que desde aquela última troca, não parei de pensar em você por segundo sequer.

Eu só queria que você tivesse a mesma iniciativa que a minha em relação a nós. Mas infelizmente não consigo fazer todos os papéis entre a gente.

Estou indo dormir com a saudade apertando muito forte. Estou usando o moletom que você me deu.

Na verdade não irei te enviar isso. Preciso poupar minha saúde mental, pois acho mais descomplicado lidar com toda essa indiferença ao lidar com rejeição.

 

Até…

vestígios

Prometi sempre estar ao seu lado. E estive. Nos momentos em que tudo parecia desabar, eu estava lá. Quando as coisas se complicaram e você dizia se sentir só, eu era presente.

Minha intenção nunca foi te deixar. Eu estava disposto a enfrentar qualquer circunstância para ter você comigo. Te deixar nunca foi minha opção.

Hoje tudo que eu queria era poder matar essa saudade que me corrói. Tudo que faço, penso, sinto, vejo ou ouço me lembra você. E tento mentalizar que preciso me desapegar dessas lembraças, da sua sombra.

Sei que muito provavelmente você já esteja bem. Talvez não sinta mais a falta que eu sinto. Sei que já seguiu em frente de alguma forma e vejo que a insegurança em continuar era quando envolvia a mim. E tudo bem, todo mundo um dia é colocado de lado, e comigo não foi diferente.

Só esperava um amor mais transparente. Só queria ter tido a oportunidade de saber mais do que apenas um “eu não sei”. Eu não merecia ser tratado daquela forma que você me tratou na última vez que nos falamos. Eu fui, realmente, sincero. Você faz falta.

Não queria estar passando por tudo isso, nesse momento tão delicado e tendo que lidar com a perda de alguém que eu esperei que permanecesse para sempre. Não vou fingir que está tudo bem. Passe o tempo que for, não vou mentir para mim mesmo. Não queria procurar noutros lugares algo que só encontrei em você. E sei que por mais que você tente, eu fui único da mesma forma.

“eu não consigo e não quero acreditar que a gente acabou aqui, sabe? (…) Acho que vai ser menos doloroso pensar que isso é temporário.”

 

Esses últimos dias estão sendo bem complicados. Ainda estou aprendendo a conviver com isso…

Tudo que eu queria era uma faísca… Nenhuma distância seria tão grande, nenhum rio profundo demais que eu não conseguisse atravesar. Sempre tentei ser seu abrigo, seu porto de segurança. Sempre te amei, pois seu amor era minha verdade.

 

 

Mas vai ficar tudo bem. Toda história tem suas cicatrizes.

ainda te amo

Ainda tenho suas cartas guardadas, os presentes que você me deu, o desenho que você fez e seus itens pessoais de colecionador que a mim foram confiados.

Ainda tenho meus pensamentos ligados a você dia após dia. As noites já não são mais as mesmas. Ainda sinto seu cheiro na roupa não lavada que usei quando te encontrei pela última vez.

Ainda lembro das suas manias bestas, da sua forma de arrumar o cabelo, da sua maneira de falar carinhosamente gesticulando com as mãos como quem tenta explicar algo complicado.

O tom da sua voz ainda ecoa por aqui, nos áudios que você me enviou, nas cartas que leio, nas últimas frases que trocamos por whatsapp…

O tempo vai ser cruel daqui pra frente. Talvez os dias continuem demorando a passar e a vida se torne um pouco menos estimulante. O vazio que você deixou, apenas você era capaz de preencher. Apenas seu abraço seria suficiente nesse instante.

Eu falei sério quando disse que queria você aqui para sempre dividindo sua caminhada comigo. Infelizmente a vida decidiu guiar-nos por caminhos diferentes, trajetos inesperados que custaram nosso nós.

Espero que tudo isso te faça bem.

Ainda tenho a sensação que posso pegar o telefone e te ver do outro lado, que vou entrar no carro para ir ao seu encontro e nossa noite será tranquila com aquele lanche daquele shopping que sempre pedíamos… e aquilo era tão sua cara.

A realidade é que ainda te amo. Ainda te enxergo em cada detalhe do dia a dia. Espero conseguir canalizar tudo isso para algum lugar que me machuque menos. Espero não levar a mesma quantidade de tempo que vivi ao seu lado, para te esquecer.

Mas a realidade é que ainda te amo. E muito.

Ainda.