de umas lágrimas contidas e escondidas por trás de alguns sorrisos

Meu amor…

Não posso esquecer. Meu coração está de ressaca, mas não faz diferença, eu fecho meus olhos, nada mais que fotos desbotadas de você… de você…

Desaparecendo, você está desaparecendo.
Você vem, e você vai. Você é apenas um eco, um sussurro em meu ouvido.
De manhã, você não está aqui. Tão inalcançável, como um eco.

Ainda tentar e fingir que é possível, trazer-nos de volta à vida. E mesmo que continuemos diminuindo, pendurados pela vida, nesse passeio de montanha-russa, eu chamo seu nome, subconscientemente.
Sempre em algum lugar, mas você não está lá pra mim.
Garota, você… está desaparecendo. Você apenas vem e vai.

Sempre em algum lugar, mas você não está lá pra mim. Não está lá pra mim.

Faded – MC

e… chorar…

Talvez eu não tenha deixado muita coisa entre nós aquele dia.
E talvez eu não devesse ter dito que te amava, ter jogado aquele jogo, e agora, eu entendo.
Gostaria de tê-la de volta e beijá-la tanto e sentir suas mãos em mim.
Até que ambos possamos desabar… e chorar.

Talvez eu não tenha te dado seu espaço, antigamente. E talvez eu devesse ter me segurado um pouco mais, mas eu estava seduzido por você, eu não tinha noção o bastante para partir. Encantado demais para desconsiderar as palavras que você disse para me fazer seu.
Preciso abraçá-la até que ambos possamos desabar (eu deveria saber que você se cansaria de mim)… e chorar.

Meu amor, imprudentemente eu deixei cada célula em mim, tão nua em algum lugar do seu núcleo, abençoar nossas almas. Eu só precisava que nós dois, estou dizendo, tenho que dizer a verdade sobre isso tudo. Sim, eu acho que foi egoísta da minha parte esperar que eu estivesse qualificado para tê-la, mas esta noite tudo que quero fazer é abraçá-la até que possamos desabar e… chorar…

Cry – MC.

Passeio no parque

Era um dia de sol e por isso mesmo a mãe dele resolveu levá-lo para brincar no parquinho. Ficava perto, foram caminhando. Ele aos tropeços. Era tão pequeno. Três aninhos. Macacão azul marinho. Cabelo bem penteado. O parque estava cheio de crianças. Todas as mães e babás tiveram a mesma ideia. Por achar os outros brinquedos perigosos para uma criança tão pequena, decidiu ficar ali pelo tanque de areia. Não que fosse totalmente seguro, aquela areia misteriosa. De onde veio? E os cães que faziam suas necessidades ali? Tudo é perigoso. Até mesmo um inocente tanque de areia, com seus vermes ocultos. Até o amor era. Mas o menino brincava. Fazia castelos com baldinhos de plástico. Digo castelos, pois era assim que as pessoas costumavam nomear. Engrandecendo as nossas tortas construções na areia, nos ensinando desde cedo o que não somos. Pondo esperanças de mãe, até que um dia a vida mesmo se encarrega de soprar esse montinho infame que acreditávamos ser indestrutível. Nossos sonhos.
E por ser um dia de sol, ela também estava ali. Não se sabe de onde veio. Apenas foi se chegando, como se não tivesse pai e nem mãe. De roupinha rosa. Cheia de babados. A mulher perfeita. Foi ela chegar e ele foi logo oferecendo seus baldinhos para ela poder brincar. E por ela ser mais caprichosa, fazia castelos maiores e mais aprumados. Ele olhava admirado. Tentava imitar. Não conseguia. Ela vendo seus fracassos, pegou na sua mão e foi ajudando o pobre menininho a erguer um castelinho digno. Ele gostava, já, dela. As mãozinhas dela pousavam nas dele e pouco a pouco conseguiram fazer o maior castelo do mundo. Conseguiram, pois estavam juntos. E a união das mãos consegue imprimir no mundo impossíveis façanhas. Ficaram de pé e, na pouca altura que tinham, admiravam o castelo. Sorriam, riam, gargalhada gostosa. Batiam palminhas.
A mãe do menino, que acompanhava tudo do banco, não conseguia entender o que eles tanto conversavam. Aquele tanto de “gugu” “dadá”, será que tinha algum sentido? Será que aquelas crianças em estágio pré-fala sabiam de algum segredo que só poderiam comunicar nessa estranha língua (ou seria uma não-língua?). Por certo, ela também já teve acesso a esse segredo. Mas cresceu. Perdeu. Era bonito de ver. Como se uma paz, que ela perdera há tempos, voltasse de repente para o seu coração. O amor que ela perdera. Estava ali, se integrando nas pequenas crianças, que nem sabiam o quanto iriam sofrer. Ela temia. Sorria. Ele também vai aprender. Como eu. Como todos os adultos. Amar. Fim certo. O menino continuava se declarando, a menininha acreditava em tudo. E era assim que tinha de ser.
E como já ia anoitecendo, a mãe do menino acreditava que estava na hora de ir. Mas não sabia como fazer para separar aquelas duas almas. Não foi preciso. Um grito distante. E a mãe da menininha chegou. Deu um sorriso, agradeceu por ter cuidado da filha dela, ela era muito independente e sempre dava um jeito de sumir. “Ela me deixa louca”, e pegando a menina no colo foi-se indo. A mulher pegou o filho também e como ele ainda acenava para a menina ela disse “Diz tchau pra sua namoradinha”. Ela era minha namorada. Mas partiu no vulto negro dos balanços e gangorras, para longe, longe, por detrás da Lua. Um cão veio e derrubou o grande castelo. Eles nunca mais se viram. O amor. Assim é que era. De repentes encontros e súbitos desaparecimentos. Num qualquer dia de sol. Em qualquer parque, em qualquer parte. Mas vem a noite. E era o que restava ser. Só.

                                                                               

pra pensar

“É intensa a vida de quem corre na chuva, sem desviar das poças d’água. É imprevisível, a vida de quem caminha sem medo de escorregar, de olhos fixos no horizonte, desatento às pedras no chão. Os tombos viram cicatrizes e, em seus pontos recém costurados, se pode ler uma porção de coisas. E entre “não faça isso” e “faça aquilo”, a gente passa a caminhar por estradas cada vez mais estreitas, quase claustrofóbicas. […] E é quando essa situação se transforma numa chaga insuportável, a gente apalpa as próprias costas e descobre que somos dotados de asas. Lá de cima, a gente pode acompanhar todos os caminhos que deixamos de percorrer, por medo de colecionar novas – e mais doloridas – cicatrizes. Tomados pelo arrependimento, descobrimos que nossa estrada não é de duas mãos.”


-Lucas Silveira