brotei

Há um bom tempo não venho aqui desengolir alguns traquejos e descarregar meus sentimentos para aliviar minha alma. A vida tem sido… diferente desde minha última visita.

Há mais de dez anos aqui tem sido meu único lugar de apego para largar todas as tralhas, sentar e ver o tempo de uma forma diferente. E confesso que há uns meses já venho sentindo falta de dar as caras por aqui.

Além da pandemia, que tem sido algo extremamente desgastante de se viver, muito de mim tem ficado pelo caminho de uma forma que não consigo parar, acessar e trazer até aqui. A vida tem seguido um norte tanto quanto incomum e meu futuro vem se tornando cada vez mais incerto.

Talvez todo esse receio diante de tudo que está acontecendo tem me travado de alguma forma. Pouco falta para concluir o ciclo de mais uma década desse meu itinerário de vida, e, claro, estar saudável já é uma grande conquista a ser comemorada, ainda mais quando tem-se que enfrentar o covid por duas vezes (mesmo me cuidando para não me infectar), mas hoje percebo que muitos dos planos que fiz no início da faculdade, lá em 2015, ainda não estão se concretizando.

E vida profissional é assim… num dia todos os seus planos fazem sentido e tudo parece caminhar de acordo com todos os esboços… e noutros tenho que lidar com a ansiedade do futuro e medo das coisas desandarem.

Enfim… Estou escrevendo isso só para atrapalhar esse hiato por aqui, e dizer (pra ninguém) que continuarei escrevendo. Aqui continua sendo meu cômodo preferido desde 2010.

Inclusive já estou vendo algumas coisas precisando serem desempoeiradas e tiradas das caixas. Acabei trazendo algumas coisas da viagem…

último encontro

Era tarde da noite e eu saía do banho, com aquele frio na barriga. Aqueles quase que incontroláveis, que dá vontade de agachar no canto com a mão no estômago. Mas não dava, eu tinha que ir, tinha que cumprir todas as loucuras que vinham tomando conta da minha cabeça. Chega de imaginar e imaginar. Pelo menos uma vez vou ter atitude.

Me arrumo rápido, ajeito o cabelo, coloco aquela roupa que você amava. Num bolso vai o celular, noutro a carteira. Entro no carro. Dou play naquela playlist que eu tinha preparado pra esse momento. Queria que você ouvisse a quarta música. É o tempo de eu chegar na sua casa e ela começar a tocar. Tá tudo dando certo, consegui me arrumar a tempo e já posso ver sua mensagem chegando no meu celular falando que tá pronta. Meu coração acelera quando leio. Nem respondo, já ligo o carro e começo a dirigir.
Parece que vou vomitar meu coração. Não acredito que vou ter mais uma chance em ter você ao meu lado, ali, sorrindo. Não vejo a hora de ouvir sua voz no meu ouvido dizendo que tá tudo bem, que tudo já se consertou, que não há nada que nos impeça de seguir nosso caminho. 
Seu cheiro ainda tá gravado aqui na minha mente. Não importa com quantas eu fique depois de você. Nenhuma vai ter seu cheiro, não serve.
Ah, mas o que falar dos seus olhinhos brilhando quando se encontram com os meus? E aquele dia que saímos sem rumo, pra andar por aí, não tínhamos um real no bolso e tivemos que nos contentar em dividir um pacote de doritos? Foi o melhor dia. Não adianta… quanto mais tento fugir de você, mais eu percebo que tem que ser você! Sempre foi você!
Faço o penúltimo balão pra chegar na sua casa, tá na metade da segunda música. Sabe, aquela com a batida legal que você gostava tanto de ouvir com seu vidro aberto, dançando sentada, com os cabelos voando no rosto, meio desengonçada por causa do cinto de segurança. Ah, você ficava tão linda assim. 
Ainda não consigo entender o porque de tanto tempo separado de você. Não consigo entender o que tínhamos na cabeça quando decidimos desistir.
As memórias ruins voltam, eu lembro da nossa última conversa e o frio na barriga volta mais forte do que antes. Será que esse encontro será o recomeço mesmo? Eu não estou sendo muito otimista ao ponto de achar que você esqueceu de tudo e decidiu recomeçar mesmo? Tenho medo. Medo de que esse encontro seja pior que o último que tivemos. O que seria horrível. Eu não consigo me imaginar sem você. Se não é você, não é mais ninguém.
Começo a fazer a última curva antes de entrar na sua rua. Eu paro o carro. Desligo o som. Eu não vou conseguir, melhor inventar que tive um pequeno acidente e não vou poder te ver hoje. 
É… é isso que vou fazer. Pego o celular, digito seu número… não. Não posso fazer isso. Talvez seja a última chance que eu tenha de te ver de novo ao meu lado, tenho que aproveitar. Desço o guarda sol do carro, me olho no espelho. Vira homem Rodolffo!! Você consegue mano.
Tá ok. Engato a primeira marcha e vou andando bem devagarzinho, já consigo ver a esquina da sua rua. E isso me faz lembrar da primeira vez que eu estava fazendo esse mesmo percurso. E lembro que também sentia muito frio na barriga. Afinal, eu tava indo ver seus pais pela primeira vez. Encarar o pai da namorada de primeira assim, não é fácil. E eu dou um leve sorriso lembrando do quanto rimos das minhas gaguejadas quando fui falar com ele… rs
Viro na sua rua, continuo andando devagar. Ainda não tenho certeza se estou fazendo a coisa certa. A rua está deserta. Sua casa é a penúltima da rua, já estou quase chegando. Ligo o som. A terceira música já está bem no finalzinho.
Paro na frente da sua casa. Já deu pra te ver na janela dando sinal que estava vindo. Eu fico paralisado. Não sei se vou conseguir falar alguma coisa quando te ver. Sinto vontade de chorar, sorrir, gritar, ir embora, travar a porta e não deixar você entrar. Você abre o portão. A quarta música começa. E com ela todas aquelas lembranças boas que tive com você afloram. Consigo ver você vindo em direção ao carro, com aquele seu salto que te deixava com a bunda mais empinada do que já era. wow. Você ficava maravilhosa com ele. Você chega na porta do carro puxa a maçaneta. Eita tá travada. Destravo logo. Você abre a porta, entra e se senta ali. Olha pra mim e olha para o som, com aquela música tocando. Não sei se você gostou ou não de eu ter colocado logo essa para tocar.
Você fica um tempo em silêncio de cabeça baixa. E eu ali, estático, sem conseguir falar nada além de ‘Oi’. Mais ou menos uns 30 segundos parada, olhando ainda pro som do carro, sem me responder. 
Já era. Isso vai ser pior do que antes, porque eu fui vim? Eu não dev…Você olha pra mim… e eu por um momento não consigo mais pensar em nada, só espero que você diga algo. Você inspira, como se estivesse se preparando pra falar alguma coisa. 
O que será que você vai dizer? Não sei. Só sei que o despertador tocou. Tá na hora de levantar da cama e ir pra faculdade. Infelizmente, adeus.